5 livros-reportagem para conhecer

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Desde que comecei a faculdade de jornalismo tenho me deparado com várias histórias incríveis que me fizeram crescer como escritora e como pessoa. O papel do jornalismo é contar histórias que façam a diferença na vida de alguém e livros-reportagens são perfeitos exemplos de como isso pode ser feito. Um gênero literário que eu nunca havia ouvido falar passou a ser um dos meus favoritos e uma grande fonte de inspiração. Separei 5 livros-reportagem com temáticas diferentes, importantes e que acredito que valem a pena ser divulgados.
Pra quem não sabe, o jornalismo literário é um gênero relativamente novo, é uma especialização do jornalismo que mistura a verdade dos fatos, acontecimentos reais e uma forma mais literária de contar essas histórias. É um jeito de se aprofundar num determinado tema, transmitir informações com mais detalhes e ao mesmo tempo ser uma narrativa quase romântica. Gay Talese é considerado o pai do jornalismo literário e não podia faltar um livro-reportagem de um dos jornalistas mais respeitados do mundo. Tem indicação de duas brasileiras maravilhosas, a Eliane Brum que conquista com sua narrativa extremamente real, crua, tocante, e a Nana Queiroz, fundadora da Revista AzMina e feminista engajada.

Resumindo, não faltam opções de livros-reportagem para conhecer! Confira:


A VIDA QUE NINGUÉM VÊ - Eliane Brum
"Uma repórter em busca dos acontecimentos que não viram notícia e das pessoas que não são celebridades. Uma cronista à procura do extraordinário contido em cada vida anônima. Uma escritora que mergulha no cotidiano para provar que não existem vidas comuns. O mendigo que jamais pediu coisa alguma. O carregador de malas do aeroporto que nunca voou. O macaco que ao fugir da jaula foi ao bar beber uma cerveja. O álbum de fotografias atirado no lixo que começa com uma moça de família e termina com uma corista. O homem que comia vidro, mas só se machucava com a invisibilidade.
Essas fascinantes histórias da vida real fizeram sucesso no final dos anos 90, quando as crônicas-reportagens eram publicadas na edição de sábado do jornal Zero Hora. Reunidas agora em livro, formam uma obra que emociona pela sensibilidade da prosa de Eliane Brum e pela agudeza do olhar que a repórter imprime aos seus personagens - todos eles tão extraordinariamente reais que parecem saídos de um livro de ficção."

O VOYEUR - Gay Talese
"Conheço um homem casado, com dois filhos, que comprou um motel de 21 quartos perto de Denver, há muitos anos, a fim de se tornar um voyeur residente.” Assim começa a espantosa história que Gay Talese, um dos maiores nomes do jornalismo literário, narra em ''O voyeur''. O homem é Gerald Foos, que construiu uma “plataforma de observação” para bisbilhotar a vida de seus hóspedes. Intrigado, Talese investiga os diários do proprietário, um complexo registro de suas obsessões e das transformações da sociedade americana, mas só após trinta e cinco anos o jornalista pode divulgar a história. Um trabalho extraordinário e polêmico do repórter que mudou para sempre a face do jornalismo."


PRESOS QUE MENSTRUAM - Nana Queiroz
"Carandiru feminino. A brutal vida das mulheres tratadas como homens nas prisões brasileiras.
Grande reportagem sobre o cotidiano das prisões femininas no Brasil, um tabu neste país, Nana Queiroz alcança o que é esperado do futuro do jornalismo: ao ouvir e dar voz às presas (e às famílias delas), desde os episódios que as levaram à cadeia até o cotidiano no cárcere, a autora costura e ilumina o mais completo e ambicioso panorama da vida de uma presidiária brasileira. Um livro obrigatório à compreensão de que não se pode falar da miséria do sistema carcerário brasileiro sem incorporar e discutir sua porção invisível.
Presos que menstruam, trabalho que inaugura mais um campo de investigação não idealizado sobre a feminilidade, é reportagem que cumpre o que promete desde a pancada do título: os nós da sociedade brasileira não deixarão de existir por simples ocultação – senão apenas com enfrentamento."

A SANGUE FRIO - Truman Capote
"Um homem religioso, uma mãe depressiva, um adolescente, uma garota dona de casa, um cachorro amedrontado e dois ladrões frustrados. Esses e outros personagens são os ingredientes chave para o romance jornalístico A sangue frio, de Truman Capote. O livro é uma reportagem investigativa sobre o assassinato de quatro membros da família Clutter, o casal e seus dois filhos caçulas, ocorrido em 1959 na cidade de Holcomb, no Kansas, Estados Unidos."




CORAÇÕES SUJOS - Fernando Morais
"A Shindo Renmei, ou "Liga do Caminho dos Súditos", nasceu em São Paulo após o fim da Segunda Guerra, em 1945. Para seus seguidores, a notícia da rendição japonesa não passava de uma fraude aliada. Como aceitar a derrota, se em 2600 anos o invencível Japão jamais perdera uma guerra? Em poucos meses a colônia nipônica, composta de mais de 200 mil imigrantes, estava irremediavelmente dividida: de um lado ficavam os kachigumi, os "vitoristas" da Shindo Renmei, apoiados por 80% da comunidade japonesa no Brasil. Do outro, os makegumi, ou "derrotistas", apelidados de "corações sujos" pelos militantes da seita.
Militarista e seguidora cega das tradições de seu país, a Shindo Renmei declara guerra aos "corações sujos", acusados de traição à pátria pelo crime de acreditar na verdade. De janeiro de 1946 a fevereiro de 1947, os matadores da Shindo Renmei percorrem o Estado de São Paulo realizando atentados que levam à morte 23 imigrantes e deixam cerca de 150 feridos. Em um ano, mais de 30 mil suspeitos dos crimes são presos pelo DOPS, 381 são condenados e 80 são deportados para o Japão. Nesta sua volta à grande reportagem, Fernando Morais conta a história da seita nacionalista que aterrorizou a colônia japonesa no Brasil."

Livros-reportagem são exemplos de como o jornalismo pode ser muito mais do que notícias rasas e assuntos banais. E o jornalismo literário me mostrou como é possível juntar a paixão por livros, histórias incrivelmente reais narrativas marcantes. Que essas 5 indicações sirvam de inspiração para os amantes do gênero e para aqueles que ainda não se aventuraram nesse universo!

*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Fonte: brittanickel.

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Resenha: O curso do amor



O curso do amor é um bálsamo da literatura contemporânea. Em um mundo em que as relações amorosas são cada vez mais romantizadas e todo mundo precisa mostrar uma vida perfeita o tempo inteiro, é interessante ler uma abordagem mais crua, real e fiel à realidade do que de fato é o casamento e a vida a dois.
Alain de Botton explora de forma minuciosa a relação de um casal desde a primeira troca de olhares, passando por todos os encontros e desencontros da vida à dois, até o entendimento do que é, de fato, o amor.  De forma analítica e literária, somos apresentados com desconstruções do que entendemos que é amar alguém de verdade. 
Quer saber o que achei do livro? Então confira a resenha de O curso do amor:

“Em Edimburgo, Rabih e Kirsten se conhecem e logo se apaixonam. Eles se casam, têm filhos. A sociedade nos faz acreditar que esse é o fim da história, mas, na verdade, é apenas o começo. Em O curso do amor, o escritor e filósofo Alain de Botton lança mão da ficção para discutir, através da história de Rabih e Kirsten, as complexidades de um relacionamento amoroso duradouro.
Ao acompanhar o percurso do casal, vivenciamos com eles o furor da paixão, os inevitáveis desencantamentos cotidianos e, ainda, a liberdade e os insights que nos chegam com a maturidade. Botton não se atém apenas ao despertar do amor, mas elabora como esse sentimento pode se manter vivo ao longo dos anos. Mergulhamos com ele na forma como nossos ideais românticos aos poucos se modificam sob a pressão do dia a dia, e deparamos com os esplêndidos — e, às vezes, assustadores — desdobramentos de se descobrir que amar é, essencialmente, mais uma habilidade que precisamos aprender.
Espirituoso, perspicaz e profundamente comovente, O curso do amor é um guia e uma reflexão sobre os relacionamentos modernos. Os desafios da relação de Rabih e Kirsten são intercalados por comentários e anotações, o que resulta em uma narrativa ao mesmo tempo ficcional, filosófica e psicológica. Um livro extremamente provocativo e verdadeiro para todos que acreditam no amor."










FICHA TÉCNICA 
Título: O curso do amor
Autor: Alain de Botton
Ano: 2017
Páginas: 253
Idioma: Português
Editora: Intrínseca
Nota: 3/5
Compre: Amazon
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Livro cedido em parceria com a editora 


O curso do amor é um livro repleto de ensaios sobre temas ligados a filosofia da vida cotidiana, com foco na vida à dois. Dividido em cinco partes - romantismo, para sempre, filhos, adultério e além do romantismo - que contêm pequenos capítulos cada uma, o livro faz uma mistura de literatura e psicologia. O aspecto literário do livro está relacionado à narrativa focada em Rabih e sua mulher, Kristen. O autor narra a história priorizando o ponto de vista de Rabih e intercala com análises psicológicas do comportamento humano em geral que explicam cada situação vivida pelo protagonista, aí entra o aspecto psicológico da obra.
A narrativa acompanha, literalmente, o curso do amor de Rabih e Kristen. Alain de Botton praticamente transcreve pensamentos de um casal em todos os momentos da vida a dois, desde a primeira impressão, a primeira vez que um sentiu tesão pelo o outro, a primeira noite juntos, as pequenas discussões cotidianas que começam por detalhes e viram bolas de neve. De forma honesta, o leitor é apresentado a personagens extremamente reais, com pensamentos perfeitamente compreensíveis e nada romantizados. O curso do amor é praticamente um estudo antropológico em que o autor nos convida a assistir de perto uma terapia de casal completamente íntima e pessoal, com duas pessoas com traumas do passado que se encontram no meio do caminho e, acostumadas a andar sozinhas, precisam dar as mãos e acompanhar o ritmo um do outro.


“Eles saem para o terraço, iluminado apenas por uma série de grandes velas distribuídas pelos corrimões. A noite está clara e o universo veio ao encontro deles. Ela aponta para Andrômeda. Um avião se inclina ao passar sobre o Castelo de Edimburgo e então se prepara para aterrissar no aeroporto. Naquele momento, Rabih sente, com toda certeza do mundo, que aquela é a mulher ao lado de quem quer envelhecer." P. 51

Alain de Botton intercala a narração em terceira pessoa do dia a dia e dos pensamentos íntimos de Rabih e Kristen com análises psicológicas e filosóficas que explicam determinados sentimentos, determinadas reações e até mesmo o limbo de emoções, quase como se de fato fosse um psicólogo respondendo aos questionamentos do casal. Essas explicações quebram a narrativa em diversos momentos o que, no decorrer do livro, atrapalha a leitura ao se tornar cada vez mais frequente.

Rabih, em determinado momento da narrativa, revela a Kristen uma fantasia sexual que não lhe saía da cabeça. Como o casal sempre explorou o sexo de forma aberta e sem julgamentos, ele acredita que qualquer fetiche será aceito de bom grado pela esposa. Entretanto, Kristem se sente incomodada com aquela fantasia específica e forma-se então um atrito entre o casal. De um lado, Rabih se sente oprimido, do outro, Kristen se sente ameaçada. A partir desse exemplo, Alain de Botton apresenta os pensamentos de ambos os personagens, revela os verdadeiros sentimentos por trás desse desentendimento, faz uma pausa na narrativa e mostra como lidaram com a situação e como deveria ter sido a reação. Ao longo de toda a leitura, o autor explora o fato de que a maioria dos conflitos é causada por falta de diálogo e compreensão mútua de que a pessoa talvez também esteja reprimindo sentimentos que queria compartilhar. É uma maneira interessante de trabalhar um tema tão comum como a vida amorosa sem cair no senso comum.







A princípio essa estratégia me pareceu muito inteligente, uma forma diferente e inusitada de contar uma história na qual todo leitor pode se identificar de alguma forma e, além disso, tentar entender o porquê dessa identificação. Como o autor também apresenta algumas alternativas para conflitos naturais que surgem ao longo da convivência, o livro ganha um caráter utilitário. Entretanto, a frequência de interrupções aumenta de forma irritante e, muitas vezes, aleatória. As pausas que antes tornavam a leitura didática ganham destaque excessivo que prejudica o andar da história. O que antes parecia interessante torna-se monótono. 
O livro mantém-se constante do início ao fim, mas é justamente essa constância que faz com que ele perca o fator surpresa e se torne tedioso. O exagero nos comentários torna a leitura um pouco arrastada já que são justamente as cenas entre o casal que fazem com que a leitura flua de forma natural. 
Rabih e Kristen não se conheceram de um jeito hollywoodiano e não levam uma vida digna de filme, são um casal absolutamente comum que, assim como a maioria das pessoas, decide se aproximar de alguém o suficiente para compartilhar uma vida juntos. O casamento não é perfeito e um dos focos do livro é mostrar justamente como essa obsessão por uma relação estável, pacífica e infalível pode afastar o casal ao invés de aproximá-lo.

Alain de Botton tenta desconstruir algumas ideias como a da traição e monogamia com argumentos psicológicos e coloca em cheque com conceitos pré estabelecidos pela sociedade. Ele faz uso das ações de Rabih para embasar seus argumentos e criar questionamentos que me incomodaram um pouco e que não foram resolvidos ao final do livro. Fiquei com a impressão de que a resolução do livro foi muito rápida, mesmo que o objetivo do autor talvez fosse deixa-la um pouco em aberto. 






“No período inicial do amor, em certa medida há apenas um alívio por ser capaz, afinal, de revelar tanta coisa que precisava ser mantida em segredo em prol da dignidade. Podemos reconhecer que não somos tão respeitáveis ou sérios, tão equilibrados ou 'normais' quanto a sociedade acredita. Podemos ser infantis, criativos, desvairados, otimistas, cínicos, frágeis e várias outras coisas - a pessoa que amamos é capaz de entender e aceitar tudo isso em nós." P. 32

O curso do amor não é um livro que ficará marcado na mente do leitor. Talvez inconscientemente ele seja responsável por nos fazer repensar alguns hábitos e modos de lidar com o parceiro ou parceira e é uma leitura interessante do ponto de vista antropológico, quase como o novo Dr. Phill da literatura cotidiana. Apesar de ser uma obra que foge aos clichês, peca pelo excesso. Enquanto a maioria dos livros trata o amor como a solução para todos os males da vida, esse mostra como os males e inseguranças da vida podem prejudicar o amor. É uma nova leitura sobre a valorização da continuidade e da permanência dentro de um relacionamento que poderia muito bem ser o de qualquer leitor.

Se você gostou da resenha e quer conhecer outro livro da Intrínseca, confira a resenha de Paris para um e outros contos!

“Declarar que o amor é 'perfeito' só pode ser um sinal de que não conseguimos entende-lo. Podemos afirmar que começamos a entender alguém apenas quando essa pessoa nos decepcionou muito. Porém, os problemas não são apenas delas. Quem quer que venhamos a conhecer, será bastante imperfeito: o estranho no trem, a velha conhecida da escola, o novo amigo virtual... Cada um deles com toda certeza virá a nos decepcionar. Os fatos da vida deformaram a natureza. Nenhum de nós saiu ileso." P.240



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Rotinas

Engraçado como a rotina pode facilmente virar uma prisão. Quando você realiza as mesmas ações todo dia, parece até errado desviar desse caminho e escolher uma rota diferente. É como se pequenas atitudes virassem obrigações diárias sem que você perceba ou possa fazer qualquer coisa a respeito.
Todos os dias ele passava por aquela rodovia para trabalhar. Seu trabalho não era tão longe, mas mesmo assim ele precisava pegar um pouco de estrada para sair de seu aconchego. Era o preço a se pagar por morar em uma casa com jardim perto da cidade grande.
Mesmo com a distância ele sempre gostou de pegar aquela rodovia, era uma estrada razoavelmente bonita e segura. E, quando já havia se acostumado com aquele caminho, colocaram um pedágio bem no meio dele.
A princípio ele esperava que fosse precisar desembolsar uns bons trocados, mas o pedágio era mais barato do que esperava. Evitou fazer as contas de quanto pagaria por ano já que a empresa não cobriria aqueles gastos. Ele poderia até tentar outra rota, sabia que tinha algum caminho por entre os bairros da cidade e alguns retornos ao redor dela, mas gastaria bem mais tempo para chegar ao trabalho e não queria abrir mão dele pequeno e constante detalhe da sua rotina.
Tinha uma rotina tão apertada e solitária que via naquela estrada um pequeno consolo para o workaholic que havia se tornado. Não sabia explicar direito se perguntassem, mas quando estava dirigindo por aquelas pistas largas gostava de imaginar que estava viajando para algum lugar, que estava saindo por aí da forma espontânea que sempre invejou em outras pessoas.
Quando chegava ao trabalho, precisava acordar daquele cenário inventado e mergulhava na rotina de novo. Era um ciclo vicioso do qual ele não conseguia sair e também não era como se ele tentasse muito.
Foi numa dessas infinitas paradas no pedágio que ele a viu. A primeira vez foi apenas de relance. Enquanto ele esperava receber o troco pela nota que havia entregado, olhou para o carro ao lado e viu uma mulher que lhe tirou o fôlego. Ele desejou tanto ser o homem que lhe dirigia algumas palavras que quase saiu do carro no meio do pedágio só para dar bom dia. E isso tudo em menos de um minuto inteiro.
No dia seguinte, para sua surpresa, ele a encontrou de novo no pedágio. Dessa vez por menos tempo ainda. Quando ele parou o carro ela já estava acelerando para longe dele.
No terceiro dia ele já esperava ansioso pelo “encontro”. Passou a levantar de um jeito tão pontual que deixaria um relógio suíço com inveja. Começou a se arrumar um pouco mais mesmo sabendo que ela provavelmente nem o veria.
Exceto que viu. Naquele dia.
Ela estava no carro à sua direita quando ele parou no pedágio. Foi o tempo de ele pegar uma nota na carteira e voltar a olhar para ela e percebeu que era observado de volta. Ficou paralisado e demorou um tempo até conseguir abrir um sorriso meio tímido. A moça da cabine pigarreou esperando o dinheiro e, quando olhou para sua direita de novo, ela já tinha acelerado o carro e seguia seu rumo para algum lugar desconhecido.
No quarto dia ela o notou mais uma vez e pareceu surpresa por aquele reencontro inesperado – por ela, já que ele ansiava por aquilo todas as manhãs. Trocaram alguns olhares, sorrisos e acenos rápidos antes de serem obrigados a seguir em frente. Ele sempre precisava ir reto, ela virava à direita poucos metros depois do pedágio.
E assim uma nova rotina foi criada. E que rotina gostosa, ele pensou.
Todos os dias eles se cumprimentavam naquele pedágio e todos os dias ele queria falar algo para ela. Aquela morena tinha um dos sorrisos mais inquietantes que ele já tinha visto e ele nem havia chegado perto o suficiente para descobrir a cor dos seus olhos.
Por vários dias eles se resumiram a estranhos conhecidos. Trocavam sorrisos e acenos e, nas raras manhãs em que o pedágio tinha fila, trocavam olhares longos o suficiente para que ele percebesse que também a afetava de alguma forma.
Era um dia chuvoso quando ele, em um ato de coragem, decidiu pedir seu número de telefone. Ou melhor, gritar e gesticular. Abriu a janela do carro e, enquanto vários pingos de chuva molhavam sua perna, ergueu o celular e apontou para o aparelho. Ela olhou de forma confusa por alguns instantes até entender o que ele queria. Ele quase pôde escutar a sua risada e odiou a distância por não poder de fato.
Ela tentou gritar de volta, mas o barulho da chuva atrapalhou qualquer possibilidade de entender de forma clara se ela queria dizer 6 ou 3, 1 ou 8. Quando ela começou a gesticular os números já era tarde demais e eles precisavam seguir em frente ao som de buzinas impacientes.
No dia seguinte, eles se desencontraram e ele ficou preocupado que ela tivesse mudado seus horários e que aqueles pseudo encontros tivessem se perdido para sempre. No outro dia ela também havia sumido.
Ele estava quase perdendo as esperanças quando, numa manhã mais ensolarada, avistou seu carro e aquele sorriso deslumbrante de novo. Ele podia jurar que havia ganhado na loteria baseando-se na euforia que sentiu.
Ela sorriu aquele sorriso que ele aprendera a admirar e apontou para o acostamento logo à frente do pedágio. Seu coração começou a bater acelerado antes mesmo de ele balançar a cabeça todo bobo.
Quase jogou as moedas no funcionário e tentou ao máximo fazer o carro acelerar sem muito barulho. Ela já o esperava com o pisque-alerta ligado quando ele estacionou atrás dela. Abriram a porta juntos e se encontraram no meio do caminho.
- Oi – ele sorriu estendendo a mão para cumprimentá-la.
Ela deu uma risadinha antes de fazer o mesmo.
- Oi – ela retribuiu o sorriso.
Verdes, ele observou abobalhado. Seus olhos eram verdes.
*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Fonte: BlogLovin'.

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