O Novo Começo

15:18

O dia em que o mundo renasceu
            Pensaram que a humanidade chegaria ao fim no dia 21 de Dezembro de 2012, o que não foi bem assim. O que ninguém esperava, era que algo grandioso aconteceria no ano seguinte em um laboratório de física na Alemanha.
            Um tal de Mark, insatisfeito com os rumos de sua vida, cansado de conviver com a solidão e viciado nas redes sociais, construiu uma máquina capaz de fazer sua mente entrar na internet. Literalmente.
            A verdade é que seus amigos e membros de chat estavam longe demais e aquela distância não estava lhe fazendo o bem que deveria. Conseguiu, depois de meses sem cessar, fazer com que a máquina escaneasse seu cérebro e transmitisse sua essência para o computador com a ajuda de alguns fios conectados ao seu crânio. Um scaner fazia uma “cópia” de seu corpo como uma câmera 3D e, em menos de alguns segundos sua imagem se formava na tela. O corpo digital, combinado com a mente, funcionava como um – inocente – vírus, compatível com todas as redes sociais nas quais quisesse se instalar. Como um efeito placebo, Mark pensou que havia encontrado seu caminho para o paraíso. Assim como muitos passaram a acreditar pouquíssimo tempo depois.
            Não demorou muito para que cientistas do mundo inteiro pusessem as mãos em sua invenção e patenteassem aquela descoberta incrível. Ocupado demais para se importar com as repercussões de sua criação, o físico se perdeu em meio ao Novo Mundo.
            Ao final do ano, setenta por cento da população mundial já portava aquela máquina e vivia plenamente e conectada. A economia passou a se basear nos frutos gerados pela Colheita Feliz, o Twitter se tornou o novo Jornal Nacional transmitindo notícias curtas e em tempo real, a Wikipedia se transformou no centro educativo mundial, o Flickr concentrava as maiores galerias de arte da atualidade, todos os maiores e melhores escritores migraram para o Tumblr para dividir suas mais recentes criações e o Youtube já estava entrando em curto devido ao número de espectadores ansiosos pelo mais novo lançamento de Felipe Neto. O eHarmony virou o grande ponto de encontro de solteiros desiludidos, o WeHeartIt se tornou o maior guia turístico de todos e o Fashiolista representava tudo que havia de mais novo e badalado nas passarelas.
            A humanidade havia encontrado outro lugar para se estabelecer. Com o passar do tempo, os corpos, esquecidos do outro lado da tela, começavam a definhar e falecer. Consequentemente, a mente no interior do computador se perdia e inevitavelmente sumia. Não demorou muito para que a seleção natural entrasse em cena e terminasse seu trabalho. Os espertos que percebiam algo “errado” se desconectavam a tempo e tentavam ressuscitar sua rotina há muito esquecida. A grande invenção de Mark se tornou a peste negra atual – não apenas o novo controle biológico como tecnológico.
            Luce, de vinte e um anos foi uma das poucas conscientes que decidiu se desconectar quando percebeu que por mais que comesse, seu estômago continuava insatisfeito. Por mais que visitasse o mundo todo dentro das fotos no Instagram, o calor do sol ou o toque de uma brisa nunca eram como se lembrava. Após se desconectar do Novo Mundo, comeu uma deliciosa pizza com a mais gelada Coca-Cola sem se preocupar, pela primeira vez em muito tempo, com a necessidade de postar a foto do prato. Desceu – pelas escadas – até a portaria de seu prédio e percebeu, com infelicidade, que não apenas o edifício, mas as ruas estavam vazias e desertas. A não ser por alguns animais contentes por finalmente terem se livrado do domínio humano.
            Sem se preocupar em olhar para os lados ao atravessar a rua, Luce caminhou até a praia e, descalça, apreciou a sensação da areia sob seus pés, se regozijando com os finos grãos tocando seus dedos. Andou mais um pouco e sentou-se ali mesmo de frente para o mar. Fechou os olhos suspirando ao sentir o sopro do vento lhe acariciando o rosto e bagunçando alguns fios de seus cabelos. O sol se punha indo ao encontro das águas e lançando sobre Luce cores vermelho-alaranjadas. Ela podia sentir o suave calor lhe tocando as bochechas e os braços. O gostoso barulho das ondas se quebrando rompia aquele silêncio quase absoluto. Ao abrir os olhos novamente, sorriu. Sorriu diante a sua realidade, sorriu diante aquele mundo – desta vez real – que lhe mostrava todos os seus simples e maravilhosos encantos. Luce se deliciou com aquilo e, sem tirar os olhos da imensidão na sua frente, pensou que não podia existir nada mais belo do que a simplicidade daquele momento.


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