Campari e cinzas de cigarro.

17:03



Alguns dias são mais difíceis que outros, ela pensou enquanto se trancava no banheiro para fugir dos murmúrios.
Aquilo não era novidade, estava começando a fazer parte da rotina. Era um cotidiano bem nostálgico para dizer a verdade. Ela sabia muito bem que havia pessoas que naquele momento estavam bem piores do que ela. Muitos estavam famintos, machucados, morrendo. Ela tinha consciência de que o inferno de verdade não era nada parecido com aquilo que ela vivia. Mas para ela, aquele era seu inferno particular.
Mesmo com a porta fechada e devidamente trancada, o som de vozes abafadas passava por entre as frestas e chegava até ela. Palavras indecifráveis, mas ainda assim pesadas e maculadas. Antes de entrar no banheiro, ela pôde sentir o cheiro do álcool e das cinzas dos cigarros. Um cheiro familiar, mas que ainda lhe causava náuseas.
O que acontecia na sala estava fora de seu alcance. Pelo menos era isso que ela queria acreditar. As pequenas grandes discussões corriqueiras eram algo que ela evitava a todo custo fazer parte. De um lado, o pai desfrutando dos efeitos da bebida e dos pensamentos intensos acumulados. Do outro, a mãe com as mágoas e frustrações sempre contidas.
Sentada com as costas na porta do banheiro ela se perguntava por que isso era tão comum quando não deveria ser. As pessoas não deveriam fazer as outras se sentirem um lixo, principalmente aquelas que juramos amar até que a morte interfira.
É incrível como alguns goles são capazes de transformar uma pessoa. De onde vieram todas essas palavras duras? De onde veio essa face raivosa e cheia de ressentimentos? Por que para ele tudo estava errado e todos não eram o suficiente? Por que para ela se tornou mais fácil ficar calada e esperar todos os desabafos acabarem rápido? Não deveria ser assim. Então por que era?
Ligando o chuveiro, ela não conseguia parar de se perguntar de quem era a culpa de verdade. Do pai, por não medir as palavras e não olhar para os defeitos que ele próprio carregava? Ou da mãe, por abaixar a cabeça e segurar todo aquele amor sem fronteiras na esperança de que ele lhe desse força? Ou quem sabe, era ela mesma a culpada por não ser o suficiente para apagar toda e qualquer derrota do passado?
Enquanto a água quente caía sobre sua pele, ela pedia para que algum dia aquilo tudo acabasse. Ela estava cansada de semana após semana ter que ouvir discussões sem base e carregadas de apelos vãos. Aonde tudo aquilo poderia chegar? Ela não queria mais ter que passar horas procurando defeitos em si mesma que justificassem toda aquela confusão que sua casa havia se tornado. Será que era ela a responsável por tudo aquilo? Será que foi ela quem não correspondeu às expectativas e agora eles sofriam com aquilo? Ou será que ela não tinha responsabilidade nenhuma naquela confusão e só podia observar enquanto tudo começava a desmoronar? Honestamente, não sabia o que era pior. Ser protagonista ou espectadora. Ela só queria alguns bons momentos em família. Momentos alegres, cheios de risadas e sorrisos e puro amor. Ela não queria mais o álcool envolvido. Em nada.
Ela detestava aquela substância maldita. Chegara ao ponto de fugir de todos que diziam amá-la. Ela cresceu com um trauma e sabia que ele nunca deixaria seus pensamentos. Era triste. Sim, era.
Sentou no chão frio e deixou que a água caísse em seu corpo e escorresse por sua pele. Talvez a água quente fosse capaz de lavar aqueles sentimentos gélidos.
O lado bom era que a violência física nunca havia acontecido. Nunca acontecia. Ainda bem.
Mas, ela suspirou, o poder das palavras é algo que sempre a surpreendeu. Ainda mais ditas por quem sabe como dizê-las.
Um homem forte usa os punhos. Um homem inteligente usa a voz. Dê a um guerreiro uma arma e ele saberá exatamente o que fazer com ela. Dê a um general a oportunidade e ele comandará todos os guerreiros que puderem ouvi-lo. Quem luta, fere. Quem fala, marca. Ela aprendeu aquilo e era algo que nunca mais esqueceria.
Às vezes simples palavras mudam tudo. Um soco não é para sempre. Os hematomas perdem a cor e a sensibilidade eventualmente vai embora. Palavras não. O poder do vento que traz os sons daqueles que não pensaram antes de soltar suas próprias verdades é imensurável. Quem pensa mais, sempre terá uma vantagem sobre aquele que age mais. É uma verdade injusta, mas ainda assim é uma verdade. Ela saberia se curar de um soco, não de um grito.
O medo de não ser o suficiente sempre pairava sobre ela. Não havia nada que pudesse fazer para conter as insatisfações e os lamentos. Ela não podia fazer nada naquele momento e duvidava que pudesse fazer algo algum dia. Simplesmente era assim. Ele dizia que aquilo não era um problema. Como aquilo poderia não ser um problema?
Desligou o chuveiro e sentiu a corrente de ar arrepiar os pelos de seu corpo. Apropriado.
Quando começou a se enrolar na toalha, sentiu as familiares lágrimas rolarem por suas bochechas. Ela quase não percebia mais quando isso acontecia. Ela quase recebeu as lágrimas com um sorriso camarada. Quase.
As vozes abafadas haviam cessado. Uma porta havia sido fechada com desgosto. Naquele momento apenas a televisão preenchia o silêncio ensurdecedor de sua casa. Era sufocante.
Enquanto sua mãe fazia um sudoku na varanda e bebericava seu copo de vinho e seu pai apagava no quarto, ela chorava olhando para seu reflexo no espelho.
Ela não chorava de tristeza, ela não chorava por causa da mágoa. Ela chorava de raiva, frustração. Impotência. Ela se perguntava quando tudo aquilo mudaria, quando tudo enfim chegaria ao fim. Ela queria risadas, em troca ouvia vozes exaltadas. Ela queria sorrisos, mas via apenas olhares distantes. Tudo o que ela queria era que aquela constante tensão se dissipasse e desse lugar à paz e à calmaria.
Olhando em retrospecto, aquelas noites não pareciam nada demais. Até acontecerem.
Ela queria fugir. Mas fugir para onde? As pessoas fogem para casa quando precisam, mas e quando sua própria casa é o lugar do qual você quer escapar?
Secando as lágrimas como havia se acostumado a fazer, ela destrancou a porta e foi para o quarto. Naquele dia, não foi checar sua mãe. Receberia um sorriso murcho e o mesmo discurso de exaustão e comodidade. No fundo, ela sabia que sua mãe ficaria bem. Era uma mulher forte, apenas um pouco ferida, mas forte. Ao contrário dela mesma.
Deitou na cama e se enfiou debaixo de seu grosso cobertor. Abraçou um travesseiro e esperou que as últimas gotas caíssem ali. Com um suspiro profundo ela apagou as luzes e se encolheu naquele emaranhado de calor.
Fechou os olhos e abraçando a si mesma jurou que algum dia tudo ficaria bem. A névoa da mágoa daria lugar a raios de satisfação e aquela presente tensão não existiria mais. Não seria preciso estar constantemente preparada para uma luta, ela poderia abaixar a guarda e trancar sua armadura em algum esconderijo de pedra. Algum dia, tudo se encaixaria e ela perceberia o quão tola foi por sofrer daquela maneira. Algum dia, tudo ficaria bem.
Algum dia. 

You Might Also Like

2 comentários

recent posts

Like us on Facebook

Twitter