Rosa champagne

19:54


            Ela caminhava a passos pesados pela grama baixa. Com a cabeça baixa tomava cuidado para não pisar nos lugares errados, se esforçava para acompanhar o homem à sua frente. Não sabia se fincava seus pés no chão e esperava por ele ou se o acompanhava naquele ziguezague extenuante. Parou de seguí-lo algum tempo depois e respirou fundo.
            Quando acordou naquela manhã o sol prometia castigar, mas naquele momento eram as nuvens carregadas que marcavam presença no céu. Ela não saberia dizer o que estava mais cinzento, o clima ou aquele momento.
Perfeito, pensou com ironia.
            Seus cabelos voavam em todas as direções, tinha que passar a mão por entre as mechas louras o tempo todo tentando mantê-las minimamente comportadas. Obrigou seus pés a caminharem, não conseguia ficar parada.
            Dava passos curtos e nada precisos. Rodava a rosa entre os dedos sem se importar muito que algum espinho pudesse alfinetá-la. Naquele momento estava mais preocupada com o rumo de seus pensamentos. Quando ergueu o rosto percebeu que algumas pessoas a observavam de longe e não entendia o motivo. Estava ali sozinha, mas não podia ser isso o que chamava a atenção. Será que alguém a reconhecia? Não, ela pensou. Não conhecia nenhuma daquelas pessoas. Por algum motivo ela atraíra olhares naquele lugar. Respirou fundo e fechou os olhos por um momento, tudo o que queria era ficar invisível.
Ignorando o desconforto, segurou o cabo da rosa com as duas mãos e olhou ao redor. A grama cobria praticamente toda a colina como um fino tapete verde exceto pelos pequenos retângulos de mármore. Algumas árvores se destacavam na paisagem mórbida, indo desde a parte mais baixa até as partes mais altas da colina como se quisessem tocar o céu.
Alguns pequenos grupos conversavam entre si, suas feições sempre neutras, vez ou outra esboçando um franzir de sobrancelhas e um olhar distante. Algumas pessoas caminhavam pelas pequenas ruas asfaltadas e eram consoladas por conhecidos enquanto se debulhavam em lágrimas. Havia poucos solitários como ela e todos pareciam querer sumir diante dos olhares estranhos.
Não sabia porque estava naquele lugar, mas sentia que precisava.
– Aqui. – O homem uniformizado parou de caminhar e fixou seu olhar no chão.
Ela respirou fundo mais uma vez antes de ir ao seu encontro.
– Obrigada. – Sorriu com os olhos marejados.
O homem lhe respondeu com um aceno e retribuiu o sorriso se afastando dali.
Ela apertou a rosa entre os dedos e olhou para o retângulo de mármore aos seus pés. Sentiu um aperto no peito e se agachou.
O nome estava quase todo coberto por uma fina camada de folhas, terra e poeira. Passou a mão afastando o quanto pôde aquela sujeira até que as letras ficaram visíveis novamente. Suspirou e sentiu seus olhos ficando cada vez mais úmidos.
Ela honestamente não sabia porque se sentia daquela maneira. Não era como se estivesse ali por causa de qualquer tipo de laço. Ela sequer conhecera profundamente aquela mulher. Tinha dito que iria até aquele lugar apenas por respeito, para prestar um favor. Mas engara a si mesma. Precisava ir até ali para sentir o que estava sentindo, para tirar da cabeça tudo aquilo que martelava em seus pensamentos.
Às vezes o inesperado acontece. Ela com certeza não esperava que aquilo acontecesse. Ninguém esperava que a vida daquela mulher fosse simplesmente... acabar. As pessoas morrem, mas não deveria ser daquela maneira. Mas de que maneira deveria ser afinal? Quando tanto sofrimento está envolvido, quando tanta dor se acumula dentro de uma só pessoa, que escolha existe?
Em poucos segundos, ela não soube como reagir à avalanche de emoções que tomaram conta de seu corpo. Tristeza, pena, admiração, nostalgia, respeito. Medo. Ela sentia tudo e não sentia nada ao mesmo tempo.
Quando lágrimas começaram a rolar por sua face ela se sentiu estúpida. Não tinha o direito de chorar sob aquele túmulo. Ou será que tinha? Sequer sabia porque estava ali. Só sabia que precisava descobrir. Não tirou os olhos das palavras nem por um momento, nem quando olhou tão fixamente que a combinação de letras não fazia mais sentido.
Acariciou as pétalas da rosa e levou-a até o nariz uma vez antes de depositá-la aos seus pés. Abraçou a si mesma se sentindo completamente sozinha em meio ao turbilhão em que sua mente se encontrava. Ela não sabia o que pensar, não sabia como deveria se sentir.
De repente tudo fez sentido. Ela não estava ali porque conhecera aquela mulher, porque conversaram algumas vezes. Não. Ela estava ali porque tinha medo de conhecer a si mesma. Tinha medo de se identificar, de perceber que talvez não eram tão diferentes assim. Precisava ir até ali para saber como se sentiria, e tinha se assustado com o que sentia.
Não queria ter ido ali sozinha, queria poder compartilhar tudo aquilo que estava pensando com alguém, mas sabia que não entenderiam. Sabia que, querendo ou não, precisava fazer aquilo por si mesma.
Chegara naquele lugar com um aperto no coração, como se algo estivesse preso ali dentro sem saber como sair. Mas já não era mais assim. Estava confusa, um pouco assustada e sentia-se sozinha, mas agora tinha certeza de uma coisa.
Deixou que a brisa secasse parte de suas lágrimas e acariciando as pétalas da flor uma última vez, levantou-se. Não olhou de novo para o nome antes de se virar e andar para longe dali.
Olhou por cima do ombro sentindo como se estivesse dando adeus para uma sombra dentro de si mesma. Não se permitiria ter o mesmo destino, jamais. Talvez não fossem tão parecidas assim, pensou. Ela não permitiria que fossem. Seria forte por si mesma, sabia que era capaz. Suas sombras só seriam causadas pelo sol, não por si mesma. Precisava ir ali para redescobrir essa certeza.
Enquanto caminhava, olhou para trás uma vez. Apenas uma vez. 

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3 comentários

  1. Olá !
    Caramba ! Você escreve muito bem :)
    Fiquei muito admirada com o seu texto . A emoção está presente em cada palavra , e isso deixa o seu texto com uma qualidade incalculável .
    Mais uma vez te parabenizo pelo seu texto / blog . Eles estão nota 100!

    Já estou seguindo o seu blog . Será que poderia seguir o meu ?

    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

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    1. Muito obrigada por comentar, ainda mais elogiando, significa muito <3 Espero que continue visitando o blog e gostando dos textos, espero te ver sempre aqui hein? ;) Obrigada por seguir, já estou te seguindo também!

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