Sábado de manhã

19:20


Os sons da metrópole de pé vagavam até a sua janela. Alguns mais tímidos e cautelosos não passavam de murmúrios, outros barulhos mais desimpedidos e estridentes não tinham vergonha em se anunciar. Carros acerando, buzinas se queixando, obras em andamento, festas sendo montadas. De todas as partes do bairro vinham sons bater à sua janela. Vários cotidianos aconteciam a todo momento, pessoas vivendo suas vidas alheias ao fato de estarem vivendo-as. Os barulhos da cidade eram como um "bom dia" para aquela que estava disposta a escutá-los. De certa forma ela se sentia reconfortada com todos aqueles estímulos.
Era sábado de manhã e seu dia ainda não havia começado. Deitada entre cobertas e devaneios, ela passava páginas e corria os olhos por frases soltas. Não estava pronta para sair dali ainda, ou talvez não tivesse ideia do que deveria fazer em seguida. As conversas abafadas pelo vento fizeram com que ela deixasse seu livro de lado por um momento e levasse sua atenção para a cortina que se movia na janela entreaberta.
Naquela manhã a cidade parecia diferente. A acústica de sons e vidas chegava aos seus ouvidos de uma maneira mais intensa do que estava acostumada. Talvez fosse ela. Talvez fosse a fase da Lua. Quem sabe?
Forçou seus músculos cansados pelo sono a se moverem até a janela do quarto. Ficou por um momento tentando absorver aquela banalidade corriqueira. Alguns poucos carros cruzavam as ruas do bairro com tranquilidade. Para onde eles estariam indo, ela se perguntou. A claridade incomodava um pouco seus olhos, o brilho do sol nas altas janelas dos prédios refletia uma manhã de um sábado qualquer. Em volta de uma tímida piscina, no topo de um dos prédios, dois moleques chutavam uma bola enquanto um deles narrava as jogadas como um radialista. Será que sonhavam em ser estrelas do seu time do coração? Um dia talvez fossem. Do outro lado da rua alguns homens carregavam mesas e cadeiras por um salão de festas. Aquela tarde seria barulhenta com certeza.
Ela adorava momentos como aquele em que a vida simplesmente acontecia. Para onde quer que seus ouvidos se atentassem, algo estaria em andamento, uma eterna obra de pequenos cotidianos. Era como se, naquele instante, ela sequer existisse. O silêncio dentro de si contrastava com o incessante correr do tempo lá fora. Era apaziguante.
Se ela prestasse bem atenção podia ouvir diálogos soltos dos passantes na rua. O ecoar das palavras era perfeitamente compreensível para quem estava mais que disposto a escutar. E ela estava.
Podia se perder no martelar das obras, no atrito das rodas dos carros com o asfalto, nos gritos infantis, nas risadas de pessoas que ela nunca chegaria a conhecer. Tinha algo de reconfortante em saber que ninguém notava a sua presença, que ela podia muito bem ser... ninguém. Eram esses pequenos momentos de paz e solidão que ela apreciava mais que qualquer coisa. Ela precisava saber que a vida continuava dia após dia, que o mundo jamais pararia de rodar, que, não importa o que acontecesse, o sol nasceria na manhã seguinte e sempre haveria um novo começo. Como uma manhã de sábado.
Suspirando uma vez ela pulou da cama e se pôs de pé. Estava preparada para se juntar àquelas pessoas. Ela também começaria seu dia, sua quase rotina. Ela também queria ficar alheia ao fato de que simplesmente vivia, podia mergulhar em algumas horas de descanso de si mesma. Estar atenta a tudo pode ser cansativo de vez em quando.
Com um sorriso presunçoso ela abriu completamente a janela do quarto, deixou que os raios de sol beijassem cada pedaço do seu cantinho. Com um tímido risinho ela acolheu os sons meio irritantes e inteiramente queridos. Sabia que haveria sempre alguém fazendo barulho em algum lugar relembrando-a de que não estava tão sozinha assim.


*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente.

You Might Also Like

12 comentários

  1. Parece quando eu acordo! Na verdade só a parte de ficar pensando e não querer levantar. Porque o bom humor, e o sorriso a todo tempo, isso não tem como pra mim! Gostei muito do seu texto Laurinha <3

    Beijinhooos :**

    http://diariofemininno.blogspot.com.br/ | http://queridaasmemorias.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sei como é isso KKK Fico muito feliz que tenha gostado, obrigada <3

      Excluir
  2. Que lindo! Fico muito feliz quando encontro um blog, que a autora escreve textos que me identifico na hora, amei esse!
    Parabéns. Publique mais escritos assim.

    Beijos!

    http://thaizamikaella.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada, fico muito feliz que tenha gostado <3

      Excluir
  3. Você escreve muito bem. Adorei seu texto, flor. beijinhos

    ResponderExcluir
  4. Nossa, você realmente escreve muito bem. Que texto inspirador e detalhista. Parabéns! É a primeira vez que eu entro no seu blog e vou ficar por aqui lendo mais textos hiihi.
    Beijos ;*
    http://www.ladystronger.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, de coração! Espero te ver mais vezes aqui no blog <3

      Excluir
  5. Você escreve muito bem! Parabéns! Gostei demais <3

    ResponderExcluir

recent posts

Like us on Facebook

Twitter