Seu garçom

08:26


“Que droga”, ele pensou enquanto passava o pedido para o computador. Geralmente não se importava em passar as noites trabalhando, mas aquele era o último lugar em que gostaria de estar naquela noite em especial.
– Troca de seção comigo? – Uma das garçonetes limpava as mãos no avental preto que cobria seu colo. Seu tom de voz era gentil, mas seu olhar parecia refletir um ânimo tão bom quanto o dele.
– Tanto faz – ele respondeu com um suspiro.
– Valeu – ela sorriu e se moveu para tocar na tela do computador e digitar alguma coisa também.
Ele guardou no avental o aparelho digital que usava para anotar os pedidos e se dirigiu até sua nova seção.
Aquela seria uma longa noite.
Sempre gostou de saber que tinha um trabalho que ajudava um pouco nas despesas. Era jovem, não precisava se preocupar tanto com algum salário alto e, até o momento, não tinha muitas pretensões. Normalmente o restaurante ficava mais agitado, era o point preferido de metade da cidade. Pensava que teria distrações o suficiente para conseguir fazer o tempo passar rápido, mas pelo visto não seria bem assim.
O restaurante estava cheio de famílias com crianças e, aparentemente, todos os casais da região decidiram marcar encontros ali e naquela noite. Enquanto ele precisava sorrir amigavelmente e prestar atenção para cada mísero detalhe dos pedidos para que não recebesse reclamações de pais aborrecidos, todos os seus amigos assistiam à final do campeonato se embebedando na casa de alguém. Não que ele fosse a favor de ficar bêbado, não era muito a sua praia, mas realmente preferia ficar com seus amigos a servir comida para estranhos.
Passou a hora seguinte dando o seu melhor para esconder seu humor e conseguir o maior número de gorjetas generosas que conseguisse. Ninguém tinha nada a ver com seus problemas, ele pensava, o mínimo que poderia fazer era sorrir e ser extremamente educado com quem atendia.
Após registrar mais alguns pedidos no computador, se dirigiu até uma mesa para atender um casal que parecia estar comemorando alguma coisa. Bom, ele pensou, esses aí estão no clima, talvez estejam no clima para me dar mais que 10% também.
– Boa noite – ele se apresentou. – Vou atender vocês hoje. Já conhecem a... casa?
Ele se atrapalhou um pouco com as palavras quando olhou por cima da mesa e seu olhar parou na pessoa que entrava no restaurante.
O curto vestido azul balançava de forma provocante conforme a mulher andava atrás de uma das garçonetes. Não conseguia ver seu rosto, seus longos cabelos claros escondiam suas feições enquanto ela se focava na tela do celular que tinha em mãos. Carregava uma pequena bolsa branca que quase caía de seu ombro enquanto ela andava. Passou a alguns metros de onde ele estava e não pôde evitar acompanhar o balanço de seus quadris à medida que ela era acomodada em uma mesa ao fundo. Tinha pernas incríveis, tinha que admitir. Quando ela se sentou e ergueu o rosto para agradecer à sua colega de trabalho, ele podia jurar que seu coração bateu um pouquinho mais rápido. Ela era muito linda.
O homem à sua frente pigarreou tirando sua atenção da recém-chegada. Percebeu que ficou em silêncio por alguns longos instantes. Balançou a cabeça e se desculpou pela interrupção antes de continuar a conversar com o casal.
Ela havia sido colocada na seção que deveria cobrir naquela noite. Mas ele havia trocado. Droga.
Terminou de anotar os pedidos do casal e se apressou para serví-los antes de procurar a garçonete que havia trocado com ele. Ela tinha acabado de colocar um suco em cima da mesa da mulher, disse alguma coisa que a faz gargalhar. Deus, até a risada dela era bonita. Ele bufou com aquele pensamento ridículo e esperou impacientemente que sua colega de trabalho fosse em sua direção.
– Qual a chance de você trocar de volta comigo?
Ela ergueu as sobrancelhas surpresa.
– Nenhuma, desculpa. Por que?
Ele não respondeu de imediato, estava preocupado demais observando a jovem e pensando em como se aproximaria dela. Será que tinha a mesma idade que ele? Parecia um pouco mais nova.
A garçonete olhou por cima do ombro e riu quando acompanhou o olhar dele.
– Ah, entendi. – ela cruzou os braços em divertimento. – Desculpa, mas já consegui a mesa que queria – Ela apontou para uma mesa há alguns metros de distância. Um grupo de cinco universitários havia acabado do ocupar aquele lugar e já parecia estar na segunda rodada. Percebeu com certo desgosto que um deles olhava para a mulher que ele mesmo admirava com fogo nos olhos.
– Merda – ele murmurou. – Valeu.

Passou os minutos seguintes servindo as mesas que fora designado para atender enquanto observava atentamente aquela mulher. Parecia que cada vez que olhava ela ficava mais bonita e ele não fazia ideia de como aquilo era possível. Ela parecia olhar para seu delicado relógio de pulso o tempo inteiro e mexia inquieta em seu celular. Droga, talvez estivesse esperando alguém. Ela ainda não havia pedido nada para comer e seu suco estava quase intocado. Ele se viu rezando para que não fosse nenhum namorado.
Qualquer um que deixasse uma mulher daquelas esperando tanto tempo sozinha num restaurante não podia ser nada menos que um completo idiota, pensou.
Foi chamado em uma das mesas e se apresentou prontamente. Quando terminou de passar a conta da família que atendera quase tropeçou quando procurou a mulher e encontrou um par de olhos claros o encarando de volta. Ele não fazia ideia de quanto tempo passaram se olhando daquele jeito, mas ela foi a primeira a cortar o contato visual ao olhar para baixo constrangida. Debaixo daquela luz pôde perceber que seu rosto estava corado.
Ele não conseguiu esconder o sorriso que se formou em seus lábios. Aquela era a sua chance.
Mal havia começado a caminhar em sua direção quando um casal mais velho se aproximou da mesma mesa na qual ele quase corria para chegar. Eles pareciam ricos e muito educados, o terno do senhor com certeza custara mais do que ele ganharia naquele ano inteiro. A jovem se levantou rapidamente e abraçou com carinho primeiro a mulher, depois o homem. Ele reprimiu um palavrão. Ótimo, como diabos ele poderia ir até lá e conversar com ela na frente do que pareciam ser seus pais?
Esperou que ela se virasse e olhasse para ele, mas foi em vão. Era quase como se ela estivesse fazendo força para não procurá-lo. Ele suspirou resignado. Aquela noite só melhorava.
Voltou ao serviço e até que estava feliz com as gorjetas. Aparentemente conseguia esconder seu humor melhor do que ele pensava.

Sempre que procurava pela jovem encontrava seus olhos fixos nos pais ou na comida. Talvez não estivesse mesmo interessada, talvez ela só o olhara com medo da forma como ele a observada atentamente. Ou talvez só fosse tímida, ele pensou sem conseguir evitar que seu peito se enchesse de esperança.
– Idiota – murmurou para si mesmo enquanto fechava mais algumas contas no computador.
Quando se virou para observá-la como vinha fazendo a noite toda, se surpreendeu ao encontrar a mesa vazia. Correu os olhos pelo restaurante e até mesmo para a porta dos banheiros, mas nem sinal dela. Passou uma mão pelo cabelo tentando se recompor momentaneamente.
– Ei, bonitão – A mesma garçonete chamou. Ele suspirou e se virou para encará-la.
– O que?
– Mandaram te entregar isso aqui – ela mordeu os lábios sorrindo de forma brincalhona e lhe entregou um pedaço de papel.
Com a testa franzida ele desdobrou o papel e, um tanto quanto atordoado, encontrou um nome e um número de telefone rabiscados ali. Ergueu os olhos e procurou novamente até que encontrou uma figura em pé na porta do restaurante.
A mesma mulher que o distraíra a noite inteira segurava a bolsa no ombro com uma mão enquanto o observava atentamente. Quando seus olhares se encontraram ela sorriu de uma forma que ele com certeza não esqueceria tão cedo e acenou timidamente com a outra mão antes de sair do restaurante.
Ele deixou que um sorriso idiota se formasse em seus lábios antes de balançar a cabeça. Pegou um pano que pendia em seu ombro e limpou uma das mesas enquanto ria satisfeito.

Aquela noite não tinha sido tão ruim assim, afinal. Nem um pouco.

*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Fonte: Pinterest.

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2 comentários

  1. Amei seu post.
    Sobre a garçonete e o garçom.
    Historia que nao tem como nao ler ate o fim.
    Pensei que seu post era ate um post porno por alguns instante.
    Muito bem escrito.
    Faltou algumas fotos mais ficou exelente.
    Ass:coringas bloggers
    Blog zebramila.blogspot.com.br
    Quando tiver um tempinho conheça meu blog.
    Bye.

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    Respostas
    1. Sério? kkkkkk Não gosto de colocar mais que uma imagem em posts assim porque o objetivo é imaginar, só coloco imagem de "capa" por questão de estética mesmo, o blog fica feio sem imagens. Mas é pra cada um se identificar de algum jeito, se colocar imagens meio que tira a imaginação porque você direciona a forma como os personagens são, como o ambiente é etc. Mas obrigada pelos elogios, fico feliz que tenha gostado da história e do post :)

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