Resenha: Uma vida no escuro

12:04


            Acho que uma das melhores sensações para um leitor é quando uma história te surpreende de um jeito absolutamente incrível. Uma vida no escuro me encantou pela capa e pelo mistério que envolvia a história. Quando peguei o livro pela primeira vez não fazia ideia do tesouro que tinha em mãos.

“Com uma carreira consolidada e um apartamento recém-comprado em Londres, parecia que a única preocupação de Anna Lyndsey seria a manutenção de seu padrão de vida. No entanto, o que começou como um desconforto diante da tela do computador revelou-se uma grave sensibilidade a qualquer fonte de luz. Em pouco tempo, trabalhar tornou-se inviável, e mesmo atividades corriqueiras passaram a causar dores lancinantes. Conforme os sintomas foram se agravando, ela precisou abrir mão da casa, da independência e de qualquer possibilidade de planos futuros.
Diante do relato de Anna sobre seus dias na escuridão, é impossível para o leitor não se perguntar o que de fato é fundamental. Se quase todas as opções fossem retiradas, das mais corriqueiras às mais preciosas, o que faria a vida continuar valendo a pena? Em uma situação em que as luzes e telas que deveriam significar segurança e comodidade são um perigo iminente, não seria de se admirar que Anna entrasse em depressão ou até mesmo cometesse suicídio.
No entanto, ela nos revela uma existência com mais nuances do que se poderia esperar de alguém mergulhado no mais profundo breu. Entre audiolivros, jogos de palavras e formas inusitadas de banir os raios de luz, Anna descobre meios de afastar os pensamentos deprimentes e perseverar mesmo com a incerteza de sua condição. Com seu contato com o mundo externo restrito à família, ao marido e às raras visitas, ela aprende a valorizar cada segundo de remissão da sua sensibilidade, admirando a natureza, a rotina e até as tarefas domésticas de uma perspectiva completamente nova.”

            Uma vida no escuro conta a história real de uma britânica, que escreve através do pseudônimo Anna Lindsay, que descobre, depois de adulta, que possui uma raríssima doença. Anna tem uma extrema sensibilidade à luz, qualquer contato com a luminosidade, seja do sol ou artificial, lhe causa uma dor excruciante; "como se apontasse um maçarico para o meu rosto". No começo ela sente apenas um forte desconforto e intolerância, mas com o passar dos meses a doença se manifesta de tal forma que ela precisa largar seu emprego e sua vida para se refugiar no escuro. Ela, forçada por sua condição, começa uma nova vida longe de tudo que conhecia.
Geralmente evito ler livros que abordem uma temática realista a esse ponto e que contem histórias de pacientes, nunca tive a cabeça mais tranquila do mundo para lidar com esses assuntos e sei que muitas pessoas são assim também. Mas Uma vida no escuro é um livro simplesmente sensacional, diferente de tudo que eu já li e vou contar um pouquinho do por que acho esse livro uma preciosidade.
Anna Lyndsey escreve com uma sensibilidade descomunal. A princípio, não fica claro qual doença ou qual problema aflige a escritora. Ela vai contando detalhes e fazendo insinuações. Deixa o leitor entender sua doença sem jogar a verdade logo de cara, como se quisesse que nós entendêssemos o que ela mesma sentiu, primeiro desconfiança e confusão, para só depois perceber do que se trata toda aquela dor. Anna nos conduz por uma viagem no tempo de sua vida anterior, como ela mesma faz questão de separar ao longo de toda a narrativa, contando em detalhes todas as implicações principalmente psicológicas que ela passou a lidar.


Uma vida no escuro é um livro simples e extremamente bem escrito e pensado. O livro é dividido em duas partes principais, sendo a Parte Um um primeiro contato com sua pessoa, a doença e sua nova forma de ver e viver o mundo. É quando o medo de Anna se mostra mais aparente e intenso. A Parte Dois é um pouco mais otimista por conta de melhoras inconstantes na sua condição e é um pouco menor em comparação à primeira. Além das partes principais, vários capítulos compõem sua história. Alguns capítulos são intitulados sonhos e numerados de acordo com a ordem de ocorrência, e Anna conta algumas das histórias que se formam em sua cabeça enquanto ela dorme. Outros são memórias de sua vida anterior intercalados com capítulos que contam, de forma cronológica, sua rotina. Alguns trechos de cartas e conversas com médicos também ocupam as páginas do livro. Anna também compartilha em alguns capítulos, jogos que ela mesma criou ou adaptou para poder se entreter durante seus longos períodos de reclusão forçada, podendo ser jogados apenas por ela ou por suas ocasionais visitas.
Ao longo da narrativa Anna descreve como se sentia impotente diante da falta de informação que os médicos dispunham e os poucos relatos de pessoas com a mesma condição que ela. Difícil explicar o que nem quem deveria entender sobre consegue compreender.
Anna tem uma sensibilidade em notar os pequenos detalhes e transformar as nuances da vida em poesia, é uma escritora nata. O livro é simplesmente maravilhoso no sentido de dar um choque de realidade para as pequenas situações que, para nós, parecem absolutamente banais. Ao ser privada de viver sua vida como uma pessoa normal, Anna transforma as mínimas ocorrências em coisas mágicas e apaixonantes. Seu relato sobre a primeira vez que pôde se aventurar pelo seu jardim após um longo período na escuridão é de tirar o fôlego, encher os olhos de lágrimas e apertar o coração com um calor inexplicável.
Uma vida no escuro é um livro essencial para todos que tem uma sensibilidade maior para com a vida. A escrita de Anna é incrível, seu modo de ver e pensar a vida é apaixonante e sua história é comovente e intrigante. Uma vida no escuro entrou para a minha lista de favoritos não só do ano, mas da minha estante e tenho certeza que é uma dessas leituras infalíveis. Perfeito.

Uma vida no escuro foi escrito por Anna Lindsay e publicado pela editora Intrínseca.

            Classificação: 5/5 estrelas.
“É muito difícil deixar um quarto totalmente escuro.
Primeiro, forro as cortinas com um material corta-luz, um tecido grosso que parece plástico e que tem um tom estranho de bege. Mas a luz se infiltra sem a menor dificuldade: por cima, passa pelo espaço entre o trilho e a parede; embaixo, pelas ondulações das dobras do tecido.
Então acrescento uma persiana de enrolar, também corta-luz, por dentro da moldura da janela. Mesmo assim, a luz escapa pelas laterais e passa, tremulante, pela fenda no topo.
Decido atacar as vidraças. Recorto folhas de papel-alumínio e pressiono-as nos vidros, colando-as com fita adesiva na moldura da janela. Mas o papel-alumínio enruga e rasga, recusando-se a se manter liso. Ainda há frestas nos cantos, além de furos e rasgos no meio. Passo ainda mais fita adesiva, grudando um pedaço de fita por cima do outro e sobrepondo mais folhas de papel alumínio, formando camadas e mais camadas. Em vez de folhas lisas emendadas com pedaços únicos de fita, a coisa está virando uma instalação de arte fora do controle. Mas não posso parar. A luz está rindo de mim, está me provocando, escondendo-se e me fazendo pensar que consegui completar uma área para, assim que avanço para o próximo pedaço, se esgueirar por algum buraquinho que passou despercebido. O dia lá fora é um oceano pulsando pressionando méis muros de contenção, e preciso vedar um dique que vaza constantemente, enfrentando o seu poderio.
Por fim, considero que terminei. Abaixo a persiana sobre a colha de retalhos Doda que fiz com papel-alumínio, fecho as cortinas e ponho uma toalha enrolada na fresta inferior da porta. Sento-me na cama cuidadosamente e espero meus olhos se adaptarem.
E consigo. Finalmente consigo. Está escuro.
Deito-me em minha caixa escura, o novo receptáculo de minha vida. Sou tomada de cansaço e alívio.”
 
Gostou da resenha? Já leu o livro ou ficou com vontade de ler? Então não esqueça de deixar uma curtida ou um comentário ;)

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10 comentários

  1. Já escutei sobre esse livro e lendo essa resenha só me deu mais vontade de ler. Parabéns a sua escrita é excelente <3

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    1. Muito obrigada!! Espero que leia mesmo, tenho certeza que vai amar <3

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  2. Nossa amei, vou comprar com certeza.

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  3. Nossa que livro interessante, transformador amo livros assim!
    www.pegaobrilho.logspot.com

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    1. Sério, é um dos livros mais interessantes que li nos últimos tempos. Vale muito a pena <3

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  4. Oi Laura!
    Vim voando de um daqueles grupos do face, pois além de colocar meu link, gosto de visitar os que lá colocam também.
    Sou viciada em livros, mas acho que leituras são como filmes: uma hora queremos ler um estilo aventura, outra hora biografia... Particularmente, curto biografias e fiquei interessada em ver a "reviravolta" que a autora dá diante de tal situação - uma mudança tão brusca de vida.
    Mais um que vai pra minha infindável listinha de desejados do Skoob.

    Abração esmagador.
    Márcia.

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    1. Oi, Márcia! Obrigada por ter passado aqui, agradeço pela visita. É exatamente assim que me sinto em relação a livros, e acho que o propósito é justamente esse, né? Dê uma chance a esse livro, tenho certeza que vai se apaixonar <3

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  5. Uou, ta aí um livro que eu gostei para ler.
    Obrigada pela dica.
    adorei o post.
    beijos

    http://vempracaamiga.blogspot.com.br/

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