A mais bela de todas

12:48


O amanhecer tentava anunciar sua chegada pelas cortinas de voil. O pequeno espaço entre as duas cortinas permitia que um feixe de luz chegasse até a cama.
Ele empurrou um pouco as pesadas cobertas pra seu colo e se virou tentando alcançar o chão com os pés. Aquela cama alta às vezes podia ser uma benção e uma maldição. Tocou seus pés cansados no tapete persa e se levantou com certo esforço. Caminhou até a janela e terminou de fechar as cortinas antes que ela acordasse, seu sono era mais leve que as pétalas de sua orquídea favorita. Ele sorriu com esse pensamento.
Dando a volta no quarto, olhou para a cama e quase riu ao procurá-la entre as camadas de lençóis e cobertores. Tão pequena, ela ainda dormia como se não fizesse menção nenhuma de acordar.
Ele abriu a porta com cautela e saiu da forma mais silenciosa que seus passos pesados permitiam. O corredor o recebeu com vários porta-retratos e quadros pendurados pelas paredes e um familiar cheiro de lavanda. De vez em quando ele se permitia parar no meio do caminho, escolher alguma daquelas memórias e mergulhar nas lembranças de um passado que parecia cada vez mais distante e, de uma forma estranha, cada vez mais presente.
A luminosidade da cozinha já o presenteava com uma bela manhã antes mesmo que ele virasse o corredor. O tímido ruído da máquina de café era quase imperceptível.
– Bom dia – ele sorriu para a ajudante que acabara de colocar duas fatias de pão na torradeira.

– Bom dia, senhor – ela retribuiu com genuína simpatia. Ela era sempre tão gentil...
Até algum tempo, ele ainda conseguia se levantar antes que ela chegasse, mas ultimamente algumas dores exigiam que ele ficasse alguns minutos a mais na cama de repouso. Nada preocupante.
Ele atravessou a cozinha e abriu a porta de vidro que dava para o jardim. Seus olhos se acostumaram rapidamente à claridade e ele se permitiu respirar fundo e assimilar todos aqueles aromas que ele tanto amava.
O jardim nos fundos da casa era seu paraíso particular, um verdadeiro mar de cores e aromas frescos. Era um cenário digno de um filme europeu. A casa de tijolos, telhado inclinado e arquitetura alemã eram um pequeno espaço de cores vivas em meio a um bairro pacato. Não que as outras casas dali seguissem o padrão acinzentado da cidade grande, mas a sua casa, o seu lar, definitivamente se destoava. Mas o jardim era sua menina dos olhos, era aquilo que ele procurava quando abria a janela de manhã. Ele podia ficar em êxtase só por saber que todas as suas flores estavam crescendo e sendo cuidadas bem debaixo da sua janela.
Fechou a porta da cozinha e seguiu em frente até onde o chão se transformava em um caminho de pedras e o cercava de cores.
As azaleias eram as que primeiro lhe chamavam a atenção. Quando se conheceram, sua esposa lhe disse que eram suas favoritas por causa da cor. Ela sempre amou a cor rosa e nunca se envergonhou disso. Adorava esbanjar sua feminilidade. Com o tempo elas deixaram de ser suas prediletas, mas continuavam embelezando constantemente alguns vasos espalhados pela casa.
Os girassóis, carentes de atenção, se erguiam pomposos. Esguios e chamativos, eram um lembrete constante de sua juventude, de um tempo em que ele mesmo se via cheio de vida, sempre em direção ao sol.
Suas estrelícias, discretas em meio às suas longas folhas verdes, davam um ar exótico ao seu jardim de cores. Depois de alguns anos tentando fazê-las florescer, podia praticamente sentir seu peito se estufando toda vez que passava por elas. Ainda conseguia se lembrar de todas as vezes em que, quando mais novo, se ajoelhou ao lado da muda, com os braços e pernas cheios de terra, e se perguntou o que estaria fazendo de tão errado quando não conseguia fazer nascer uma flor.
Ah, o dente de leão... Quando a primeira planta cresceu em seu jardim, ele se sentiu receoso. Não tinha planejado plantá-la, e mesmo quando fez todas as adaptações no jardim e a arrancou, não pôde deixar de ficar surpreso quando, algum tempo depois, esporádicos pontinhos brancos voltaram a morar por ali. Com o tempo (e mais algumas tentativas), ele passou a deixar de vê-la como uma praga e a vê-la com certa admiração. E como negar a beleza das sementes que voam com tamanha graciosidade?
Quando mais nova, sua esposa adorava arrancar alguns dentes de leão e, com os olhos fechados, soprava e se deleitava com a sensação de vê-los voando por aí. Às vezes ela era capaz de passar uma manhã inteira procurando dentes de leão no jardim. Hoje ele percebe que só permitiu com que continuassem crescendo em seu jardim porque adorava a expressão no rosto da esposa. A quantidade crescente deles era um lembrete de como a frequência das visitas diminuiu. Ele entendia os joelhos cansados, os passos lentos, o fôlego fraco, mas ainda assim, sempre que pisava no jardim sentia a nostalgia visitá-lo por alguns instantes.
As rosas, grandes clichês, em nada se perdiam no jardim. Seu aroma era inconfundível ao seu olfato, mesmo que fosse quase imperceptível à distancia para os outros.
Ele foi até suas roseiras e decidiu pegar duas de cada cor. Com uma tesoura na mão, tomou todo cuidado para escolher vermelhas, amarelas, brancas e champagne. Olhando para as vermelhas e brancas de novo, decidiu pegar mais uma de cada. Com seu pequeno buquê nas mãos, analisou com cuidado as pétalas e levou-as até o nariz. Suspirou em contentamento.
Fazendo sua caminhada diária em seu pequeno paraíso, foi até seu cantinho especial e se sentou no banco de madeira que descansava na sombra. As margaridas eram suas favoritas. Brancas de pureza e amarelas de alegria, eram pequenos pontinhos constantes em seu jardim. Não tinham a beleza extravagante das suas orquídeas ou cerejeiras, eram mais fáceis de cuidar e bem mais encantadoras. Sempre aos montes, ele se orgulhava de olhá-las da janela do quarto, da mesa acomodada no meio do jardim, da varanda da cozinha. Por onde quer que ele passasse na casa, seus olhos sempre buscavam suas meninas.
Por mais que quisesse continuar sua caminhada, sentia suas juntas rangendo e seus braços procurando algum apoio. Forçou-se a dar por encerrada sua caminhada e, segurando seu pequeno buquê entre as mãos, voltou pelo pequeno caminho de pedras que levava até a varanda da cozinha.
Como sempre fazia antes de voltar para dentro de casa, olhou por cima do ombro para admirar seu jardim. Um centro de cores e aromas, de memórias e desejos, alguns mais desvanecidos que outros. Após anos de adaptações, estudos e muita dedicação, ele conseguiu construir um lugar do qual pudesse sentir orgulho. Um lugar para se admirar todo dia.
Limpou os pés no tapete da entrada e, após um copo d’água, retomou seu caminho para o quarto. O sorriso encantado que a ajudante direcionou ao delicado buquê passou despercebido.
Ao chegar no quarto, comemorou mentalmente por ela ainda estar dormindo. Não ficou no jardim tanto tempo assim, afinal. Preocupou-se em ajeitar uma última vez as rosas em suas mãos e as colocou delicadamente na cômoda ao lado de sua esposa.
Todo dia ele se preocupava em acordar cedo, antes que ela despertasse, e descia até o jardim para montar um buquê. Flores eram pequenos presentes da natureza e sua esposa era a maior recompensa de todas. Na época em que “uma flor para uma flor” não soava tão banal, ele pensou que não haveria nada mais verdadeiro que aquela frase.
Todo dia ela acordava com uma seleção de flores que ele mesmo plantou, que ele mesmo cuidou, que ele mesmo adorou até que pudesse colhê-las e presentear a pessoa que mais amava no mundo. Todo dia ela já sabia que acordaria com seu presente e, mesmo assim, o brilho nos seus olhos nunca demonstrava nada menos que a mais completa alegria.
Ele foi até a janela e abriu as cortinas. Quando a luz da manhã adentrou o quarto, ele voltou até a cama e se sentou ao lado dela. Deu um beijo em sua testa e percebeu quando ela começou a acordar. Com os olhos pequenos de sono, suas pálpebras se ergueram e seus olhares se encontraram.
Depois de tantos anos, ele ainda se surpreendia com as emoções que tomavam conta de seu peito toda vez que aqueles olhos verdes encontravam os seus. E quando encontravam... Nem o mais belo dos jardins se comparava àquilo.

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5 comentários

  1. Laura, tudo bem? Que crônica maravilhosa, você escreve bem demais, admito, seus textos são tão incríveis, a maneira como escreve, palavras soltas que vão formando linhas e mais linhas como uma garoa que vai encobrindo tudo aos poucos, se prendendo facilmente a alma de quem lê <3
    Beijos
    www.luaintensa.com.br

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    1. Nossa, Luana, muito obrigada por esse comentário. Fico muito feliz que tenha gostado do texto, espero te ver mais vezes aqui <3

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  2. Eu novamente aqui, mas entrando só para falar que amei demais esse texto desde o momento em que o li e por isso coloquei ele nos links favoritos da semana para que outras pessoas também possam amá-lo desse mesmo jeito, espero que goste <3
    Beijo, Lua
    http://www.luaintensa.com.br/2016/09/10-links-favoritos-da-semana-2-dica-de.html

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