Carência

11:37


Ela estava cansada daqueles amassos no carro. Será que todos os homens tinham estabelecido uma regra de que toda noite deveria terminar assim? Parecia um maldito padrão, todo encontro acabava de alguma forma em beijos sem sentido no carro – na maioria no dela – e, pior, nem eram tão bons assim. Parecia que absolutamente todos os movimentos eram pateticamente sincronizados e coreografados. Todos eram iguais, até a forma de beijar era a mesma. O que diabos estava acontecendo com os homens desse planeta? Não se lembrava da última vez em que um homem a fez lutar para desenvolver algum pensamento lógico em meio a beijos quentes e carícias de tirar o fôlego. Não, naquele momento ela se perguntava quanto tempo era politicamente correto até que ela pudesse gentilmente empurrar o homem ao seu lado e lhe dar boa noite.
Quando foi que todos os homens que ela encontrava tinham estabelecido que terminar a noite em seu carro era a conclusão ideal para um encontro? Aquele era sempre o término porque, daquele jeito, ela jamais insinuaria uma continuação em outro lugar menos apertado e estofado. Uma prensa em algum corredor de bar a faria sentir melhor do que aquilo, pelo amor de Deus.
Ela estava definitivamente perdendo as esperanças. Nada daquilo parecia fazer o menor sentido na sua cabeça. Era algo especial que só ela tinha? Algumas pessoas sabem cantar, outras conseguem se lembrar de todas as datas importantes e desinteressantes sem esforço, algumas até arrotam uma canção de natal qualquer. Ela, aparentemente, tinha a habilidade de sempre atrair o mesmo comportamento masculino, apenas a embalagem variava.
Estava cansada de ser o homem da relação. Era completamente a favor da independência feminina, gostava de saber que não precisava dar satisfações para ninguém, que era forte e segura por si só e que não precisava entrar em disputas pelo poder com alguém do sexo oposto. Tinha trabalhado o suficiente para isso mental, emocional e financeiramente. Mas era pedir demais que algum cara tomasse as rédeas da situação por alguns minutos? Que os amassos acontecessem no carro dele e não no dela só pra variar um pouco? Algum daqueles caras que tinha se encontrado sequer se ofereceu para pagar uma conta? Ela obviamente não aceitaria, seu orgulho não permitiria, mas ainda assim seria legal escutar a oferta. Só para saber que ele chegara a pensar naquilo. O último cara que abriu alguma porta pra ela era tão babaca quanto o que a deixou vinte minutos esperando. Para não pedir desculpas depois.
Como mulher, às vezes sentia a necessidade de se aconchegar debaixo do braço de alguém e se deixar ser mimada um pouco. Quando aquilo tinha acontecido pela última vez? Será que sequer aconteceu? Que ótimo, ela nem conseguia se lembrar. Era toda a favor da sua independência, dar satisfações para algum cara que achava que tinha o direito de controlá-la era a última coisa que queria na vida.
Mas... Naquele momento, enquanto sua mente inutilmente se esforçava para se focar nos lábios que se moviam contra os dela, ela pensou que queria um homem. Um homem. Não alguém como o sujeito que parecia não saber o que fazer com sua língua. Queria um homem que a fizesse se sentir segura, que a fizesse se sentir como se fosse a última mulher na face da terra porque ele com certeza seria o único que importaria pra ela. Queria um homem que, ao perceber o fogo que ela escondia nos olhos, a prendesse contra seu corpo e a mostrasse o que ela vem perdendo com todos aqueles babacas que só sentavam no banco do passageiro. Ela queria deixar o controle nas mãos de outro, só para ver como seria. Só uma vez. Só pra variar. Queria um homem que entendesse exatamente o que ela queria, que soubesse ler com seu corpo todas as palavras que a pele dela iria gritar para ele. Um homem que não fosse um brutamonte sem controle ou um ser tão sensível que tinha medo de tocá-la direito. Precisava de alguém que entendesse seu ritmo, porque ela sabia, ah como sabia, que se encontrasse um homem capaz de fazer seu sangue latejar por seu corpo, não iria se segurar.
Estava cansada de sentir um cheiro diferente no seu carro a cada encontro que tinha. Isso quando ela se permitia “aproveitar” um pouco mais. Queria sentar no banco do passageiro pra variar, abrir mão nem que fosse momentaneamente do controle que tinha adquirido tão bravamente. De que adiantava ser daquele jeito se ninguém tinha coragem de desafiá-la de vez em quando? Queria um cheiro, e só um, impregnado nos bancos do seu carro, nas suas roupas, no seu quarto, no seu travesseiro. E, só pra variar um pouco, queria deixar sua marca em alguém. No carro de alguém, nas roupas de alguém, na pele de alguém.
Uma vez na vida ela queria que a convidassem para um encontro de verdade ao invés de esperar que ela planejasse todos os detalhes. Uma novidade? Ela gostava de ser surpreendida. Queria que a deixassem em casa e que se oferecessem para buscá-la de vez em quando. Não aguentava mais cuidar dos outros, queria ser cuidada também. Só um pouquinho. Só para satisfazer um pouquinho aquela necessidade que a consumia dia após dia.
Estava cansada de sempre ser aquela que escolhe o filme que iriam assistir no cinema; aquela que escolhe a vaga no estacionamento porque, afinal, é ela quem sempre dirige; estava cansada de sempre ser aquela que faz as sugestões. O que ela passou a fazer? Sugerir os mesmos programas porque, afinal, eram todos iguais, não eram? Deus, até os assuntos eram os mesmos. Os mesmos comentários, a mesma maneira de tocá-la, a mesma abordagem. Sentia como se estivesse vivendo o mesmo dia repetidamente. E não era um ótimo dia. Era só... Bom. Ok.
Será que o problema todo era ela? Só podia ser, não havia outra explicação. Era pedir demais que um cara a levasse para algum lugar além do principal shopping da cidade e do restaurante fast-food mais famoso dali? Não fazia questão nenhuma de ir no lugar mais caro e requintado da cidade, daria tudo por um sorvete dividido no banco da praça do bairro. Não era como se não houvessem lugares pra ir, coisas pra fazer. Tudo o que queria era que aparecesse algum homem que não fosse como os outros, não era tão difícil. Ela só queria ser tirada daquela maldita mesmice.
Só. Isso.
Sentia como se pudesse se relacionar com dezenas de homens e ainda assim se sentiria carente de algo que ela não sabia nomear. Não fazia ideia de como lidar com aquilo.
Ela praticamente implorava por um homem que a tratasse de igual para igual. Não queria ser controladora, não queria ser controlada. Queria uma constante disputa em que nenhuma das partes saísse perdendo, porque seria delicioso descobrir quem estaria no comando daquela vez. Queria que tornassem as coisas interessantes, um cara que fizesse seu coração bater mais rápido da maneira mais deliciosa do mundo. Porque, naquele momento, ela poderia muito bem estar assistindo televisão, sua pulsação seria a mesma.
É... talvez fosse mesmo uma megera.
Voltando para sua presente companhia, ela até tentou instigá-lo mais. Passava as mãos por seus cachos negros, deixava os dedos correr por seus braços e peito, mas ele parecia estar confortável fazendo a mesma coisa há quinze minutos. Beijava sua boca de uma maneira quase que mecânica. Ela suspirou.
Interrompeu o beijo o mais delicadamente que conseguiu. Quando se afastou percebeu que seus olhos azuis estavam entreabertos e a olhavam de forma curiosa. Ele tinha olhos muito bonitos. E até ofegava um pouco. Não é possível que estava gostando disso, ela pensou.
O problema era ela. Definitivamente.
– Boa noite – ela murmurou forçando um sorriso e tentando ao máximo não ser indelicada.
– Mas já? – Sua voz parecia decepcionada.
O que ele esperava? Que continuassem por mais duas horas aquela seção de beijos sem sal e sem química alguma? Eles ainda nem haviam saído do estacionamento do shopping.
– É, estou cansada – ela suspirou dando de ombros.
Cansada de se sentir aquele lixo, aquela mulher sem coração e frígida. Estava cansada de sentir coisas que sabia não corresponderem ao que ela era de verdade. Cansada de mais do que ela era capaz de descrever em palavras, na verdade.
– Tudo bem então – ele sorriu. Não era uma má pessoa, ela sabia. Só não era o que ela precisava naquele momento. Talvez nem ela mesma soubesse o que queria. Só sabia que não eram momentos assim.
Ele abriu a porta do carro e se virou para ela novamente.
– Me liga?
Ela se encolheu mentalmente. Fez um esforço hercúleo para reprimir o suspiro que se formava em seu peito.
Apenas sorriu e acenou se despedindo.
– Tchau – murmurou sem saber se ele ouviu. A porta já havia sido fechada.
Contou até dez mentalmente e deixou sua cabeça descansar no volante enquanto sua mão direta tateava o rádio tentando ligá-lo. Precisava ouvir qualquer coisa que não fosse aquele silêncio ensurdecedor do seu carro e seu coração que batia lentamente ecoando em seu ouvido.
Reunindo toda sua força de vontade, obrigou a si mesma a enjaular aqueles sentimentos amargos em seu peito. Poderia sentir pena de si mesma quando chegasse em casa. Seu travesseiro seria um companheiro melhor que o volante que com certeza estava deixando uma marca vermelha em sua testa.
Ergueu a cabeça e procurou o retrovisor para dar uma olhada em seu reflexo. Seus cabelos estavam quase que perfeitamente arrumados e na cabeça dela aquilo era sempre um sinal de como a noite não correspondera às expectativas. Seus lábios estavam um pouco mais avermelhados, mas sua maquiagem estava intacta e só precisou de alguns instantes antes de voltar sua atenção para o painel.
Colocou o rádio na estação que mais gostava e ligou o carro.  
Suspirando pelo que facilmente poderia ser a centésima vez naquela noite, se apressou para sair dali. A caminho de casa, deixou que as luzes da cidade iluminassem o interior do carro, os pontinhos de luz coloridos que atravessavam a janela e tatuavam sua pele eram como pequenas carícias amigas. Ela se sentiu um pouco confortada.
A noite estava bem fresca, pedia por uma bebida quente. Ela amava noites assim. Decidiu que quando chegasse em casa prepararia um chocolate quente e se esconderia entre cobertas no sofá enquanto zapeava pela televisão. Aquele era um plano.
Permitiu que sua mente se focasse na balada que saía do som e preenchia os espaços vazios do carro, outra pessoa podia cantar seus desejos o quanto quisesse. Ela só queria ir pra casa e tentar não pensar no quanto não gostaria de se sentir tão sozinha.

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