Resenha: Confissões do crematório

13:57


Confissões do crematório me marcou muito. Além de ter uma proposta diferente, explicitada já no título do livro, a forma real e crua com que Caitlin Doughty narra suas experiências como agente funerária vai ficar na minha cabeça por um bom tempo. Confissões do crematório é um dos livros de não ficção mais diferentes e incríveis que eu já li.

“Ainda jovem, Caitlin conseguiu emprego em um crematório na Califórnia e aprendeu muito mais do que imaginava barbeando cadáveres e preparando corpos para a incineração. A exposição constante à morte mudou completamente sua forma de encarar a vida e a levou a escrever um livro diferente de tudo o que você já leu sobre o assunto.

Confissões do Crematório reúne histórias reais do dia-a-dia de uma casa funerária, inúmeras curiosidades e fatos filosóficos, históricos e mitológicos. Tudo, é claro, com uma boa dose de humor. Enquanto varre as cinzas das máquinas de incineração ou explica com o que um crânio em chamas se parece, ela desmistifica a morte para si e para seus leitores.

O livro de Caitlin – criadora da websérie Ask a Mortician – levanta a cortina preta que nos separa dos bastidores dos funerais e nos faz refletir sobre a vida e a morte de maneira inteligente, honesta e despretensiosa – exatamente como deve ser. Como a autora ressalta na nota que abre o livro, “a ignorância não é uma bênção, é apenas uma forma profunda de terror.”


Desde a primeira página, Caitlin já me prendeu na sua forma de escrever e, principalmente, na sua maneira de ver o mundo. Ela sempre foi uma pessoa mais introspectiva e curiosa a respeito da morte, um assunto tão abominável para a maior parte das pessoas. Desde cedo a considera como um assunto fascinante e essa admiração e curiosidade são quase palpáveis quando passamos as páginas.


Quando era mais nova e precisou fazer trabalho voluntário no ensino médio, Caitlin logo escolheu a área hospitalar e procurou uma ocupação em que pudesse ficar perto do necrotério. E, ao longo do tempo, sua vontade de fazer parte do mundo das agências funerárias só cresceu, até que teve a chance de trabalhar em um crematório na Califórnia.

Trabalhar em um crematório preparando os corpos para serem incinerados mudou a autora de forma irreversível, mas não da forma como todos pensam. Não foi por conta do choque, do trauma de trabalhar constantemente com cadáveres, foi o contato com a realidade inevitável da vida; a morte.

A forma de pensar da autora foi o que mais me prendeu ao livro. Ela não apenas conta suas experiências no crematório e alguns casos curiosos que aconteceram em sua presença, mas também faz reflexões profundas a respeito da forma como vemos a morte. Ela critica o fato de que tentamos evitar a todo custo o contato com qualquer coisa que remeta ao nosso destino final, desde os caixões como são feitos até a forma de preparar os corpos das pessoas. São argumentos que nunca passaram na minha cabeça e que abriram portas para várias outras reflexões.

Além de pensamentos e desabafos a respeito de sua vida pessoal, o livro é cheio de informações interessantíssimas. Caitlin é formada em história medieval e, o longo do livro, ela conta de forma extremamente didática como a morte é vista em diversas culturas ao longo dos milhares de anos. Até a história dos índios Wari do Brasil estão em um dos capítulos! São várias curiosidades e fatos históricos. É muito interessante observar como a autora entende a respeito do assunto e tem uma mente aberta no que diz respeito às culturas e suas crenças, por mais diversas e “estranhas” que elas sejam.


Como sempre, a diagramação dos livros da Darkside está impecável. A leitura se torna ainda mais gostosa ao segurar um livro feito com tanto trabalho e atenção. A capa dura e em alto relevo, as páginas desenhadas com detalhes cheios de caveiras e o marcador em formato de carta de tarô deixam tudo mais chamativo.

Confissões do crematório é um livro essencial para todos aqueles que possuem a mente aberta, não só por aqueles que se interessam pela morte, mas para todos que buscam diversas visões sobre a vida.

Ao passar a última página e fechar o livro, me senti uma pessoa diferente, mais rica de pensamento, de cultura. Confissões do crematório virou um dos meus favoritos não só do ano, mas de todos os que eu li. Sempre digo que livro bom é aquele que diverte, que te tira do seu mundo e te leva para outro lugar. E quando um livro acrescenta de tal forma que você se sente mais rica sem ter feito nada além de correr os olhos por algumas palavras? É um tesouro para se guardar no cantinho mais especial da estante.

Caitlin Dought possui um canal no youtube onde fala a respeito dessas e de outras experiências e conversa um pouco a respeito da morte. Se quiser conferir a web série Ask a Mortician, clique aqui.
 

Confissões do crematório foi escrito por Caitlin Doughty publicado pela editora Darkside Books.

            Classificação: 5/5 estrelas.
“No momento, eu estava viva e com sangue correndo pelas veias, pairando acima da putrefação que existia abaixo, com muitos amanhãs em potencial na minha mente. Sim, meus projetos ficariam fragmentado se inacabados depois que eu morresse. Como não podia escolher como morreria fisicamente, só podia escolher como morreria mentalmente. Quer minha mortalidade me pegasse aos 28 ou aos 93 anos, fiz a escolha de morrer satisfeita, de seguir para o nada, com meus átomos se tornando a névoa que encobria as árvores. O silêncio da morte, no cemitério, não era uma punição, mas uma recompensa por uma vida bem vivida.”

Gostou da resenha? Já leu o livro ou ficou com vontade de ler? Então não esqueça de deixar uma curtida ou um comentário ;)

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5 comentários

  1. Ai socorroooo! Parece muito foda mas eu não conseguiria ler não hahaha

    xox
    Próxima Primavera

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  2. Me deu uma vontade inexplicável de ler esse livro.
    A Darkside sempre arrasando nos livro...

    Adorei a resenha

    Beijos

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  3. Ai como eu amo os livros da Dark Side, se pudesse comparava todos hausha. Sua resenha me chamou bastante atenção para essa estória, com certeza vai entrar para minha lista de leitura de 2017.
    http://izumiy.blogspot.com.br/

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