Resenha: As coisas que perdemos no fogo

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Desde que comecei minha parceria com a Intrínseca tenho me arriscado cada vez mais em gêneros que não estava tão habituada a ler. As coisas que perdemos no fogo me deixou curiosa desde a sinopse com a promessa de um livro pesado e extremamente profundo. 
Apesar de não ser um livro que me agrada tanto por causa do suspense e do terror, Mariana Enriquez escreveu uma obra densa e extremamente interessante em um mundo com livros cada vez mais rasos. 
Quer saber o que achei do livro? Então confira a resenha de As coisas que perdemos no fogo:

“Macabro, perturbador e emocionante, As coisas que perdemos no fogo reúne contos que usam o medo e o terror para explorar várias dimensões da vida contemporânea. Em um primeiro olhar, as doze narrativas do livro parecem surreais. No entanto, depois de poucas frases, elas se mostram estranhamente familiares: é o cotidiano transformado em pesadelo.
Personagens e lugares aparentemente comuns ocultam um universo insólito: um menino assassino, uma garota que arranca as unhas e os cílios na sala de aula, adolescentes que fazem pactos sombrios, amigos que parecem destinados à morte, mulheres que ateiam fogo em si mesmas como forma de protesto, casas abandonadas, magia negra, mitos e superstições.
Uma das escritoras mais corajosas e surpreendentes do século XXI, Mariana Enriquez dá voz à geração nascida durante a ditadura militar na Argentina. Neste livro, ela cria um universo povoado por pessoas comuns e seres socialmente invisíveis, cujas existências sucumbem ao peso da culpa, da compaixão, da crueldade e da simples convivência. O resultado é uma obra ao mesmo tempo estranha e familiar, que questiona de forma penetrante e indelével o mundo em que vivemos.







FICHA TÉCNICA 
Título: As coisas que perdemos no fogo
Autor: Mariana Enriquez
Ano: 2017
Páginas: 190
Idioma: Português
Editora: Intrínseca
Nota: 4/5
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LIVRO CEDIDO PELA EDITORA


As coisas que perdemos no fogo é uma coletânea de contos da autora Mariana Enriquez. Suspense e terror parecem ser o foco da maior parte das 12 histórias narradas no livro. A princípio pensei que o livro seria quase um livro-reportagem a respeito de uma mulher que cresceu durante a ditadura militar. Ou que fosse uma coletânea de contos que estivessem extremamente conectados à realidade, ao cotidiano de toda uma geração. Entretanto, não é bem assim.
Os contos sempre começam com características e aspectos que poderiam muito bem ser de pessoas reais, mas à medida em que as histórias vão evoluindo é possível perceber com mais facilidade os temas sombrios e macabros abordados pela autora. É inegável dizer que Mariana Enriquez escreve de tal forma que, mesmo em cenários completamente fantasiosos, o leitor se questione se aquilo realmente poderia acontecer e se é um relato verídico. Apesar da autora, em nenhum momento, forçar o leitor a acreditar naquilo que está sendo narrado, as histórias são construídas de tal forma que você sente medo de que tudo aquilo realmente possa refletir uma realidade. 


“Sonhei com o menino sujo. Eu saía à sacada e ele estava no meio da rua. Eu fazia sinais com a mão para que ele se movesse porque vinha um caminhão muito rápido. Mas o menino sujo continuava olhando para cima, olhando para mim e para a sacada, sorrindo, os dentes imundos e pequenininhos. " P. 29

Os personagens de Mariana Enriquez são extremamente reais, com desejos, anseios, pensamentos e falhas perfeitamente humanos. Tanto suas histórias de vida quanto suas reações aos acontecimentos narrados ao longo de todo o livro são extremamente críveis. Mariana Enriquez consegue dar credibilidade aos contos através dos personagens que se transformam diante dos olhos do leitor e assumem características muitas vezes grotescas. 
Algumas histórias são realmente perturbadoras, como as mulheres que passam a atear fogo em si mesmas em forma de protesto, em prol de uma ideologia particular. Mariana Enriquez não poupa descrição em detalhes assustadores como do menino acorrentado em uma casa aparentemente abandonada. São essas descrições que fazem com que a leitura atinja o leitor, são esses detalhes asquerosos que chocam e tornam a leitura diferente de muitas outras por aí.



Enquanto alguns contos parecem evocar o terror pelo terror, outros escondem críticas sociais fortes nas entrelinhas escuras. São sutilezas que poderiam passar batido pelo impacto de seus finais. Com um pouco de reflexão é possível tirar conclusões sobre problemas sociais, preconceitos e vestígios de um povo que sofreu com as injustiças dos séculos. 
Todos os contos se passam na Argentina, mas é uma Argentina completamente diferente daquilo que estamos acostumados. São apresentadas realidades das favelas, periferias e subúrbios esquecidos pela população rica. Parece que Mariana Enriquez pega vários estereótipos e trabalha em torno deles procurando ora reafirmá-los em forma de crítica, ora surpreender o leitor com uma alternativa chocante. É como se ela pegasse medos e anseios e o transformasse em realidade, em pequenos pesadelos. 

“Não me animo a entrar. Há uma inscrição rabiscada acima da porta que me mantém do lado de fora. Aqui vive Adela, cuidado!, diz. Imagino que foi escrita por um garoto do bairro como piada ou desafio. Mas eu sei que tem razão. Que essa é a casa dela. E ainda não estou preparada para visita-la." P. 75.


Gosto de livros que me fazem pensar, que me tiram da minha zona de conforto e que me mostram uma realidade completamente diferente daquela na qual estou acostumada e As coisas que perdemos no fogo fez exatamente isso. 
A leitura flui muito bem por vários motivos: os contos são breves, o que faz com que cada capítulo seja lido rapidamente e de forma dinâmica, não fica enjoativo porque o ritmo de leitura está sempre mudando para acompanhar os contos diferentes; como a narrativa é voltada para o suspense e o terror, muitas vezes é impossível largar o livro antes de concluir cada conto, você acaba passando as páginas sem perceber que está evoluindo no livro.

Gostaria de chamar a atenção para a capa maravilhosa é extremamente significativa. O título do livro que representa o último conto é uma ótima forma de convidar o leitor para conhecer esse universo sombrio e assustador.  
As coisas que perdemos no fogo é um livro para aqueles leitores que gostam de pensar e ver o mundo de fora da caixinha e que não têm medo de histórias capazes de tirar da zona de conforto. É um livro forte e marcante. Livros inquietantes geralmente são os que mais geram discussões enriquecedoras. É um livro pra se discutir num grupo de leitura, para pensar nas marcas do passado.

Se você gostou da resenha e quer saber mais sobre minha última leitura da Intrínseca, confira a resenha de Até que a culpa nos separe! 

“Todos caminhamos sobre ossos, é uma questão de fazer buracos profundos e alcançar os mortos encobertos. Tenho que cavar, com uma pá, com as mãos, como os cães, que sempre encontram os ossos, que sempre sabem onde os esconderam, onde os deixaram esquecidos." P.126



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