Resenha: Fique Comigo

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Publicado originalmente pela TAG Inéditos, Fique Comigo agora chega em uma bela e chamativa edição da HarperCollins Brasil. Ayobami Adebayo fala sobre maternidade de uma maneira extremamente impactante, sobre a resiliência feminina em uma cultura onde a poligamia é aceita e incentivada e sobre a Nigéria da década de 80, palco de conflitos políticos e de uma democracia fragilizada.

Quer saber o que Fique Comigo tem de tão impactante? Então confira a resenha:

"Yejide espera por um milagre: um filho. É o que seu marido deseja, o que sua sogra deseja, e ela já tentou de tudo para engravidar. Mas, quando seus parentes insistem que seu marido receba uma nova esposa, Yejide chega ao limite. Tendo como pano de fundo a turbulência política e social da Nigéria dos anos 1980, Fique comigo relata a fragilidade do amor matrimonial, o rompimento de uma família, o poder do luto e os laços arrebatadores da maternidade. Uma história sobre as tentativas desesperadas que fazemos para salvar a nós mesmos, e a quem amamos, do sofrimento."

FICHA TÉCNICA


Título: Fique Comigo
Autora: Ayobami Adebayo
Ano: 2018
Páginas: 256
Idioma: Português
Editora: HaperCollins Brasil
Nota: 4/5
Compre: Amazon
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA

Fique Comigo é um romance nigeriano que me pegou de surpresa. Descontruindo, a cada página, todas as minhas expectativas e pré-conceitos, Ayobami Adebayo presenteia o leitor com uma narrativa dramática, cenários inusitados, personagens impactantes, contextos históricos e uma leitura extremamente humana.

É um livro feminino no sentido mais doce da palavra. Não porque é uma narrativa voltada para leitoras, mas porque trata da feminilidade em seu enredo, foco narrativo e na motivação da protagonista. Yedije é uma mulher que tem a maternidade como característica intrínseca, tem sua sexualidade como fator decisivo na condução do enredo, é guerreira como apenas uma mulher pode ser. Fique Comigo é um livro sobre maternidade, feminilidade e resiliência.

“Eu dizia a mim mesma que respeitava meu marido. Me convenci de que me calar significava que eu era uma boa esposa. Mas as maiores mentiras são na maioria das vezes as que contamos a nós mesmos. Eu mordia a língua porque não queria fazer perguntas. Não fazia perguntas porque não queria saber as respostas. Era cômodo acreditar que meu marido era digno de confiança; às vezes, confiar é mais fácil do que duvidar.” Página 212


Fique Comigo traz um olhar sobre a normalidade da poligamia em culturas diferentes à nossa. O que a princípio pode causar muito estranhamento no leitor ocidentalizado, é uma das principais riquezas da narrativa. A forma como a cultura poligâmica é inserida na história ajuda a entender a personalidade dos personagens, suas motivações e hábitos.

É difícil se acostumar com essa característica da narrativa, ainda mais quando já estamos familiarizados com enredos descontruídos e empoderadores, mas isso de forma alguma afeta a forma como a protagonista é retratada, pelo contrário, a maneira como ela lida com a realidade da cultura em que está inserida faz com que sua personalidade fique mais aparente e suas escolhas sejam, de certa forma, compreensíveis. O papel da mulher em sociedades onde a poligamia é naturalizada e incentivada, mesmo no século 20, como é o caso do momento do livro, é posto sob os holofotes.


Ayobami Adebayo traz o retrato de uma Nigéria em meio a um caos político devido a golpes militares e a uma quebradiça democracia. Fique Comigo se passa, majoritariamente, durante a década de 1980, quando as alegações de fraudes eleitorais, protestos políticos acirrados e golpes de estado são frequentes a níveis diários. A violência do estado e entre a própria população é evidente em situações retratadas brevemente pela autora, como em assaltos constantes ao comércio dos personagens e nervosismo diante das cenas mostradas nas televisões das casas da população.

Além do próprio enredo fácil de capturar o leitor, o contexto político nos dá um panorama novo, diferente daqueles que estamos acostumados, o que enriquece a narrativa e faz com que Fique Comigo seja, indiscutivelmente, um livro único na minha estante.

 “Você se vira na minha direção, perscruta meu rosto. Não a culpo se não acreditar em mim, mas essa é a verdade, exatamente como aconteceu. Você franze o cenho, apoia-se contra a parede, vira o rosto para a porta aberta. Fica em silêncio pelo que me parecem horas. O único som entre nós é a música distante da recepção.” Página 234


A forma como a autora conduz a narrativa deixa a desejar uma vez que ela não é feita de forma cronológica, se alterna entre Yedije e Akin e não possui um fio condutor claro para o leitor. Como a separação de capítulos é feita da mesma forma durante todo o livro e não existe nenhum indicador de alternância de ponto de vista, muitas vezes é difícil acompanhar o enredo com naturalidade, é preciso se localizar com frequência, sem a ajuda da autora ou de elementos que demarcam explicitamente essa mudança.

Fique Comigo também trabalha a forma como as escolhas alheias interferem nas escolhas individuais, sejam elas conscientes ou inconscientes, políticas ou domésticas. Nossas escolhas são moldadas por aqueles que fazem parte de nossas vidas e Ayobami Adebayo trabalha esse ponto de forma primorosa.


Fique Comigo é um livro sobre confiança e entrega, sobre maternidade e feminilidade, sobre família e relacionamentos. Ayobami Adebayo traz a Nigéria para perto do leitor enquanto faz com que ele mergulhe na profundidade dos dilemas de uma nigeriana em plena década de 80, com o país em ruínas e a família aos pedaços. É um livro que, com toda certeza, trará sentimentos conflitantes para o leitor, mas é, sem dúvidas, uma narrativa que merece ser lida e conhecida.

Gostou da resenha e quer conhecer outro livro extremamente impactante? Então confira a resenha de Coragem!

"É isto então: quinze anos aqui e, embora minha casa não esteja pegando fogo, tudo que vou levar comigo é uma sacola de ouro e uma muda de roupa. As coisas que importam estão dentro de mim, encerradas em meu peito como um túmulo, onde permanecerão para sempre, meu baú de tesouros sepultados." Página 10


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